quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Os seres perfeitos me enchem de medo.
Prefiro os fracos que vivem no limite e ainda assim não se entregam nunca.
Gosto dos solitários que enlouquecem de hora em hora,
no seu tempo sempre maior que o de toda gente.
Prefiro os sonâmbulos que se rrebentam em paredes de solidão em suas noites vagas,
mas acordam todos os dias.
Concordo com os amantes clandestinos que se dilaceram em sua saudade nunca desfeita,
do amor interrompido, apesar da hora sempre marcada.
Prefiro os tristes que vivem dentro si e engolem suas dores em mudez e pranto.
Aceito os que nada sabem de limites e entregam suas mãos e o peito a toda loucura,
perdendo-se e ainda assim, nunca desistem da eterna procura.
Gosto dos que vivem por um fio, os de alma inquieta que, sem remorso,
fragmentam a virtude e riem do equilíbrio.
Procuro os exaltados que agridem o bom senso sem graça e sem vida,
mesmo se cortando em cacos.
Prefiro os estropiados do amor com suas asas alvejadas,
rasgadas e sujas de tanto amor,
mesmo que só a indiferença seja seu alento e ainda assim, tentam voar.
Procuro os sonhadores sem remédio esquecidos da terra em que pisam
e ainda assim constroem pedaços de paz.
Gosto dos desesperados, sem fé, sem credo, sem templo,
que investem no pescoço da submissão e a degolam.
Não, não quero os seres perfeitos, donos da vitória e da vida.
Estes estão todos mortos.

(Saramar Mendes)

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